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  • Helena Marques

Estado de praga, os ratos.

Diário de uma pandemia.

Estado de praga, os ratos.




Ratos vinham de todos os cantos. Ruelas, esquinas e bueiros semi abertos.  Multiplicavam-se. Ao longe ouvia-se os  gritinhos ardidos. 

Num único dia, 19 mil haviam dominado a cidade. 

Traziam consigo morte e terror por entre as patas  cinzas peludas.

Em estado pânico, a  praça ardia de febre e medo. 

A regra era clara: #ficaemcasa #usamascara #laveasmaos #vivaosus. Mas não era para todos. Como explicar ?


O presidente explicou! 

Falou da terrível morte da economia. Morreríamos todos falidos, empresários e políticos. Os pobres morreriam antes, de fome.

Parecia estar nu, usava apenas um tipo de  brinco numa das orelhas. Devia ser para ouvir melhor seu povo.


O prefeito de joelhos, o bispo com as faces vermelhas, corria levantando a batina enquanto o pastor escancarava o evangelho anunciando o merecido castigo. 

-Pecadores, pederastas, prostitutas, pobres, pretos, todos irão morrer! 

Profetizava, o santo homem, em meio a saliva espumante que escorrida pelo canto da boca. 

Castigo divino. Merecido! Merecido!

“ Estado  de praga”. Era assim que chamavam.

Os Muros  da cidade foram fechados. Iniciou-se a quarentena sem fim. 

Famílias  separadas. Casais estilhaçados no mesmo espaço.

Os mais doentes morreriam  em casa abandonados. 

Os velhos deveriam  morrer em primeiro lugar, anunciou num discurso épico, o ministro da saúde.


O Sr. juiz decretou: 

Prisioneiros devem enterrar cadáveres. Afinal, para que servem os prisioneiros?

Em um trabalho interminável, os corpos se multiplicavam  e se acumulavam nas ruas. 

Velhos, jovens, pretos, brancos, crianças, pobres e ricos. 

Todos juntos e amontoados.


O que nos resta? 

Aceitar o destino?

Não enterrar os  mortos e morrer também? 

Ou  aprender a cozinhar e lavar o chão da casa?

Não tem registro. 


Num determinado momento, as mortes começaram a diminuir. 

Entre excitação, cabelos desgrenhados da histeria transbordante, as pessoas voltaram às ruas.


Fechou-se um ciclo. As portas da cidade se abriram. As famílias, então separadas, começavam a se reunir. 

Terminou? 

A praga durou 4 anos, mas poderia voltar a qualquer momento.


Helena Marques. 


Texto Baseado:

A Peste- Camus. 1947.


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© 2019 por Helenamarques

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