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  • Helena Marques

Pelo direito de enterrar nossos mortos.

Brasil, 100 mil.


O desaparecimento de um ente querido, promove mecanismos de defesa poderosos, negação, culpa, cisão, confusão, comprometendo a saúde mental e social dos sujeitos.



Vivemos um momento histórico, que remonta os anos 30, entre guerras, primeira e segunda guerras mundiais; quando a impossibilidade de elaboração do luto, favorece um terreno fértil para transtornos psíquicos: depressão, ansiedade e, sobretudo, os de ordem psicossomática, cefaleias, alergias, dores articulares, musculares, entre outras patologias.


Desde o início da pandemia, o Brasil registrou 100.477 mortes e 3.012.412 casos confirmados de COVID 19, em 8/8/20 (fonte, Connass -, Conselho Nacional de segurança de saúde.)


Para além das alarmantes estatísticas, assistimos o desmonte do SUS - Sistema Único de Saúde, orquestrado por um governo de ações desconectadas da comunidade científica internacional.


De um lado, a banalização da pandemia que acomete milhares de brasileiros, de outro, a falta de políticas públicas preventivas e de assistência à população.


Ao mesmo tempo, somos bombardeados por notícias de mortes por uma polícia despreparada e violenta, atingindo em sua maioria, meninos pobres, pretos, periféricos, levando ao perverso lugar da naturalização da morte.


Nesse cenário crise político-sanitária, famílias são afetadas não apenas pela doença, como também por outras questões transversais de natureza psicossocial, como desemprego, fome, não acesso aos serviços de saúde, moradia, educação, que frente ao impacto da pandemia, escancaram a profunda desigualdade social histórica de nosso país.


Sob o ponto de vista psicológico, mortes repentinas como no caso da COVID -19, se assemelham ao desaparecimento de pessoas em períodos de ditaduras - , página infeliz da história recente do Brasil, como também em situações de guerras ou atentados, remetendo os sujeitos à experiências de traumas coletivos, cuja extensão é impossível de ser dimensionada, a medida em que os danos podem atingir gerações inteiras.

O sofrimento psíquico fica aumentado, devido ao impacto da imprevisibilidade e, a invisibilidade do corpo se sobrepõe a elaboração do luto, constituindo desordens psíquicas profundas, como regressão a estados primitivos, como por exemplo sensação de desamparo.


A ausência de rituais de despedida: velórios, rezas, velas, imagens, cânticos, entre outras representações simbólicas, que significam falar sobre o indizível, são essenciais para elaboração do luto.


A supressão desses aspectos simbólicos de realização, podem comprometer efetivamente a vida de famílias por várias gerações, arrebatadas por sentimentos devastadores -, como parar em pleno voo, a mais dura experiência da orfandade emocional.


Elaborar a perda é determinante para a sobrevivência psíquica de um indivíduo, como também de uma nação inteira, pois ressignificar implica construir novos registros internos, que possam sustentar a continuidade da vida, uma maneira de não nos enterrarmos vivos com nossos mortos.


***

100 mil no Brasil

Eu nego,

Tu choras,

Ele barganha,

Nós deprimimos,

Vós isolais,

Eles aceitam.

Helena Marques

Psicóloga e psicanalista.


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© 2019 por Helenamarques

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